6.1.2.1. Carga
O crescimento de carga considera as taxas de crescimento percentuais por ano da previsão da
2ª Revisão Quadrimestral do Planejamento Anual da Operação
Energética – Ciclo 2025 (2025-2029), realizada pelo ONS em conjunto com a Empresa de Pesquisa Energética –
EPE e a Câmara de Comercialização de
Energia Elétrica – CCEE. A Tabela 6.1, a seguir, apresenta as taxas de crescimento de carga consideradas
como padrão.

Tabela 6.1: Taxas de Crescimento de Carga
6.1.2.2. Capacidade Instalada de GD e MMGD
A previsão de MMGD utilizada nas análises foi a do Programa Mensal de Operação (PMO) de
setembro de 2025, que utiliza como base a metodologia 4MD
(Modelo de Mercado da Micro e Minigeração Distribuída). Segundo esse modelo, até 2029, a MMGD atinge o
valor de 64,9 GW de capacidade instalada.
Além da base do PMO, também foi realizada uma sensibilidade com a base de capacidade
instalada de MMGD encaminhada pelas distribuidoras para os
estudos do PAR/PEL 2025 de modo que a capacidade instalada prevista para o ano de 2029 é de 58 GW. Tais
diferenças entre as bases serão mais bem
detalhadas no Capítulo 7 - Impactos da Geração Distribuída na Segurança Elétrica do SIN.
Por fim, para a Geração Distribuída (GD), foi considerada a geração verificada devido ao
crescimento pouco representativo dessa fonte ao longo do horizonte.
Dessa forma, não há aplicação de fatores de crescimento. Os aspectos relacionados ao crescimento e o
impacto da GD, também, serão abordados no
Capítulo 7.
6.1.2.2. Capacidade Instalada de Usinas Eólicas e Fotovoltaicas
Com relação à capacidade instalada das usinas eólicas e fotovoltaicas, existem duas bases, a
PEN/PMO e a base de Contrato Uso do Sistema de Transmissão
(CUST). As premissas dessas bases são detalhadas a seguir:
- Base PEN/PMO: Considera a evolução da capacidade instalada das usinas eólicas e fotovoltaicas que já
firmaram CUST e iniciaram as obras
de implementação das respectivas usinas ou que possuam contratos de compra e venda de energia de longo
prazo. Nessa base, para as análises, foram
consideradas apenas as usinas Eólicas e Fotovoltaicas do Tipo I e II, não considerando as usinas do Tipo
III, com base no PMO de setembro de 2025.
- Base CUST: Considera a capacidade instalada das usinas eólicas e fotovoltaicas que possuem CUST
assinado. Como data prevista para operação
de cada usina, foi considerada a divulgada no Relatório de Acompanhamento da Expansão da Oferta de
Geração de Energia Elétrica (RALIE), publicado pela
ANEEL em outubro de 2025. Também foram consideradas apenas as usinas Eólicas e Fotovoltaicas do Tipo I e
II, não considerando as usinas Tipo III, que
atualmente não participam dos cortes de geração na operação em tempo real do SIN.
Ao final do horizonte, é prevista uma diferença de aproximadamente 10 GW de geração entre as
duas bases, com a base PEN/PMO atingindo 58,8 GW,
enquanto a base CUST atinge 69,3 GW. A Figura 6.2 apresenta a evolução da capacidade instalada de Eólica e
Fotovoltaica para as bases PEN/PMO e CUST.

Figura 6.2: Capacidade instalada de Eólica e Fotovoltaica
6.1.2.3. Geração Térmica e Hidráulica
Para a geração térmica, a premissa adotada considera a inflexibilidade sazonal das usinas
termoelétricas, conforme os dados declarados no PMO de
setembro de 2025. No entanto, a análise também pode ser realizada replicando os valores observados no
horizonte-base, assumindo que o padrão de
despacho térmico horário se repetirá nos anos futuros.
Para a geração hidráulica, a abordagem metodológica difere conforme o tipo de restrição a
ser avaliada:
i. Análise de Restrição por Confiabilidade Elétrica: o comportamento da geração
hidráulica verificada é replicado para todo o horizonte,
sob a premissa de repetição das condições hidrológicas e de manutenção da capacidade instalada.
ii. Análise de Restrição por Razões Energéticas: a metodologia específica será
apresentada a seguir, uma vez que o Requisito de Hidráulica
Mínima do SIN passa a ser o parâmetro limitante para essa avaliação.
6.1.3. Limites avaliados
6.1.3.1. Análises de Restrição por Confiabilidade Elétrica
As análises de restrição por confiabilidade elétrica utilizam como referência os limites das
interligações regionais calculados no PAR/PEL 2025, cujos valores
variam conforme o período do dia e a entrada de novas obras no horizonte de 2026 a 2029. Esses limites
estão detalhados no Capítulo 4 – Limites das
Interligações Inter-Regionais e no Volume II do PAR/PEL.
Neste contexto, é importante destacar que a análise de restrição adotou algumas
simplificações metodológicas em relação aos dados apresentados no
Capítulo 4. Primeiramente, não foi considerada a variação do limite de ExpNE em função do percentual de
geração fotovoltaica. Além disso, o limite de
ExpNNE foi apresentado no Capítulo 4 apenas para o período de carga máxima noturna, não contemplado os
demais períodos avaliados.
Assim, para evitar assimetria de informações quanto aos valores utilizados, a Figura 6.3 e a
Tabela 6.2 apresentam exatamente os limites de referência
empregados nas análises. A Figura 6.3 mostra os limites de ExpNE, e a Tabela 6.2 detalha os limites de
ExpNNE. Ambos os dados estão conforme definidos
no Volume II – Evolução dos Limites de Transmissão nas Interligações Inter-regionais do PAR/PEL 2025 –
Ciclo 2026 – 2030.

Figura 6.3: Limite de Exportação Nordeste por Período de Carga

Tabela 6.2: Limite de Exportação do Norte e Nordeste para o
Sudeste/Centro-Oeste
6.1.3.1. Análises de Restrição por Razões Energéticas
Para a análise de restrição de geração por razões energéticas, o valor limite utilizado como
referência no balanço entre carga e geração é o Requisito Mínimo
das Usinas Hidroelétricas (Req_UHE_MínSIN). A definição desse requisito deve levar em
consideração o comportamento da fonte, que está intrinsecamente
associado aos regimes hídricos do País, exigindo uma análise estratificada por mês.
Como se trata de uma avaliação de restrição por razões energéticas, os valores históricos de
geração hidráulica mínima devem ser obtidos em dias nos quais
houve restrições energéticas no SIN. Além disso, é necessário observar a relação entre a carga global do
SIN e a geração hidráulica registrada, de forma a
avaliar a participação das UHEs no atendimento da carga, especialmente nos momentos de maior demanda.
Assim, foi considerado que a participação absoluta e relativa da geração hidráulica futura
não deve ser inferior aos valores mínimos observados no histórico
desses dias com corte energético. Adota-se, portanto, a simplificação de que as condições mensais futuras
se repetirão, permitindo extrair a sazonalidade
hidrológica média.
Dessa forma, para todos os meses do histórico foram calculadas as seguintes métricas:
i. Hidráulica Mínima (UHEmin): valor mínimo, em MW, da geração
hidráulica observada nos dias em que ocorreram cortes por razões
energéticas, em cada mês.
ii. Participação Mínima da Hidráulica na Carga (Part_UHEmin): menor
valor da razão entre a geração hidráulica verificada e a carga global
registrada nos dias com cortes por razões energéticas, em cada mês.
Após as definições desses valores, para cada instante, é definido o requisito mínimo das
Usinas Hidroelétricas (Req_UHE_MínhSIN), a partir da avaliação entre o maior valor
entre a UHEmin com o resultado do produto da Part_UHEmin com a carga global prevista em cada
horário.
Portanto, o Req_UHE_MínSIN ) é definido de maneira dinâmica a partir da relação
entre a geração e a carga global, além de incorporar a avaliação do
comportamento sazonal da fonte, sendo um aprimoramento metodológico em relação à abordagem utilizada no
relatório do ONS para subsidiar o GT Cortes
de Geração. A Tabela 6.3 apresenta os valores de UHEmin e PartUHEmin utilizados como
referência para os meses do ano.

Tabela 6.3: Geração Hidráulica Mínima Verificada e Participação Mínima da
Hidráulica na Carga Global Verificada
6.3. Metodologia
6.3.1. Análise de Balanço Estático
A metodologia empregada para determinar os cortes de geração é fundamentada em uma análise
de balanço estático, configurando-se como uma forma
de extrapolação de tendências. Esta abordagem utiliza os dados históricos verificados associados a
aplicação de fatores de crescimento para a carga e a
geração, conforme premissas descritas acima.
Nas avaliações de restrição de geração por razões de confiabilidade, esse cálculo é dado
pela diferença entre a geração total de um determinado subsistema,
ou conjunto de subsistemas, sub, em uma hora, h, definido (Gerhsub) e a carga
deste mesmo subsistema e instante de tempo (Cargahsub), conforme indicado na
equação (I). O resultado dessa equação é o montante de potência exportado por esse subsistema
Exphsub, que se for positivo, representa uma exportação, e
se for negativo, representa uma importação de energia.

Assim, para todas as horas do horizonte de análise, que vai de 2026 a 2029, é feita
diferença entre a geração (Gerhsub) e a carga
(Cargahsub) daquele subsistema.
A parcela de geração é composta pela soma definida na equação (II), em que
UHEhsub, representa a geração hidráulica verificada no instante de tempo h,
UTEhsub
a inflexibilidade das térmicas para este mesmo horário, MMGDhsub,
EOLhsub e UFVhsub a energia gerada por MMGD, eólica e
fotovoltaica, respectivamente,
prevista com base nos fatores de capacidade calculados, considerando a geração verificada e a frustrada, a
partir do histórico verificado.

Neste cenário, o corte de geração decorrente da violação de um limite de interligação em
cada horário pode ser calculado utilizando a equação (III),
apresentada abaixo, levando em consideração apenas os valores positivos dessa expressão. Isso significa
que, sempre que a exportação exceder um limite
estabelecido (Limitehsub), será necessário efetuar cortes de geração para garantir a
confiabilidade e a estabilidade da operação elétrica do SIN.

Para as avaliações de restrição de geração no SIN por razões energéticas, é aplicada uma
análise similar. Neste contexto, a principal diferença é que o
balanço energético não é comparado a um limite de exportação, mas sim ao requisito mínimo das Usinas
Hidroelétricas (Req_UHE_MínhSIN), essencial para
garantir a segurança da operação e manter o controle da frequência elétrica do SIN em níveis apropriados.
A equação (IV), a seguir, representa o resultado de geração hidráulica
(Res_UHEhSIN) para equilibrar o balanço energético do SIN, considerando a carga
horária do sistema e os valores atribuídos às outras fontes de geração para cada hora do período entre
2026 e 2029.

Caso o valor calculado (Res_UHEhSIN) seja inferior ao requisito mínimo
para o sistema no momento específico h, (Req_UHE_MínhSIN), isso sinaliza uma
sobreoferta de geração no instante h. Neste cenário, é necessário realizar cortes de geração para
assegurar o equilíbrio entre a carga e a geração do sistema.
Dado que a geração das UHEs não pode ser reduzida abaixo do requisito mínimo, torna-se necessário ajustar
a geração de outras fontes. Estes ajustes
devem seguir a equação apresentada abaixo, considerando somente os valores positivos da equação (V).

6.3.1. Classificação dos Cortes
Após a avaliação de todos os instantes, é feita a classificação dos cortes. Foi adotada uma
abordagem top-down na classificação dos cortes, de modo que
em casos em que houver, simultaneamente, cortes por confiabilidade elétrica e por razões energéticas ao
mesmo conjunto de geradores, a classificação
adotada será de corte por razões energéticas. O motivo da escolha desse método de classificação é
justificado pelo fato de que, independentemente das
restrições do sistema de transmissão, ainda haveria a necessidade de restringir geração por razões
energéticas. Dessa forma, na abordagem top-down, os
cortes energéticos prevalecem sobre os cortes por confiabilidade.
Por outro lado, caso fosse adotada a priorização da classificação por confiabilidade,
poderia ser transmitida a percepção de que as restrições que levam
ao curtailment estão concentradas exclusivamente no sistema de transmissão. No entanto, mesmo com a
expansão da rede de transmissão para eliminar
tais restrições, os cortes ainda assim ocorreriam, devido à necessidade de equilíbrio entre geração e
consumo em determinados momentos — ou seja, por
razões energéticas. Por isso, neste exercício, quando houver simultaneidade de causas, será priorizada,
sempre que possível e em montante adequado, a
alocação dos cortes como sendo de natureza energética.
Nesse contexto, são considerados três condicionantes que definem os possíveis cenários de
interseção entre esses conjuntos, os quais são descritos a
seguir. Ressalta-se que, para fins de ilustração dessas três condicionantes, utilizou-se como exemplo o
montante de corte por confiabilidade necessário nas
interligações entre as regiões Norte/Nordeste e Sudeste/Centro-Oeste, em paralelo com os cortes
energéticos. No entanto, essa escolha não restringe a
aplicação da metodologia apenas a essas regiões, sendo a lógica de classificação aqui descrita plenamente
reaplicável a qualquer outra região (ou restrição)
do SIN. As três possíveis opções são:
i. Corte Energético no SIN > Corte Energético no NNE > Corte por Confiabilidade no
NNE: nesse cenário, o montante de
corte energético necessário no SIN, distribuído entre as regiões, já é suficiente para atender também às
restrições de confiabilidade
elétrica nas regiões Norte e Nordeste. Nesse contexto, não se faz necessário um corte adicional por
confiabilidade, e todos os cortes
são classificados como cortes energéticos. Dessa forma, todo corte ocorrido na região Norte e Nordeste
(NNE) é classificado como
corte energético, visto que o corte energético no NNE necessário na hora h
(CortehEnergético NNE) é maior que o corte por confiabilidade no
NNE necessários na hora h (CortehConfiabilidade NNE).
ii. Corte por Confiabilidade no NNE > Corte Energético no SIN: nessa situação, o
montante de corte de geração por confiabilidade no
NNE (CortehConfiabilidade NNE) excede o corte energético necessário para o SIN
(CortehEnergético SIN). Nesta situação, a parcela de corte por confiabilidade
é classificada como a diferença entre o montante de geração que deve ser cortado por confiabilidade no
NNE e o corte energético necessário no
SIN (CortehConfiabilidade NNE - CortehEnergético SIN).
Simultaneamente, a parcela de corte energético permanece como o montante inicialmente necessário
no SIN (CortehEnergético SIN).
iii. Corte Energético no SIN > Corte por Confiabilidade no NNE > Corte Energético no
NNE: Por fim, nesse cenário, o
montante de corte por confiabilidade necessário no NNE (CortehConfiabilidade NNE)
é maior que o corte energético destinado para essa região
(CortehEnergético NNE), mas menor que o total de corte energético do SIN
(CortehEnergético SIN). Neste caso, o corte energético distribuído no
SIN não é suficiente para solucionar as questões de confiabilidade nas interligações entre o Norte e o
Nordeste. Portanto, é preciso
calcular o valor adicional de corte necessário no NNE para evitar violações dos limites elétricos na
região. Este corte incremental
resulta em uma redução dos cortes de geração nas regiões Sul, Sudeste/Centro-Oeste, ajustando-se de modo
que o volume total de
geração frustrada no sistema interligado permaneça equivalente ao necessário. Nesse sentido, a parcela
de corte por confiabilidade
corresponde apenas ao corte incremental realizado no NNE (CortehConfiabilidade NNE
- CortehEnergético NNE), e a parcela de corte energético é
ajustada subtraindo o corte por confiabilidade incremental do montante total necessário no SIN.
A Tabela 6.4 sintetiza e exemplifica os montantes de cada tipo de corte por classificação em
cada um dos três possíveis cenários.

Tabela 6.4: Síntese dos Montantes de corte por classificação para os três
possíveis cenários avaliados.
6.4. Análise e Resultados
Para apresentação dos resultados, foram definidos quatro intervalos de tempo com base no
comportamento da carga e da geração fotovoltaica do SIN:
i. Entre 00:00 e 06:59: Caracterizado por uma carga e geração fotovoltaica reduzidas.
ii. Das 07:00 às 08:59 e das 16:00 às 17:59: Abrange as horas em que a geração fotovoltaica está em
transição, incluindo um período de
crescimento e outro de decrescimento.
iii. Entre 09:00 e 15:59: É marcado por uma geração fotovoltaica elevada e uma carga supervisionada
reduzida. Nesse período, grande parte da
carga é atendida por MMGD.
iv. Entre 18:00 e 23:59: Envolve uma geração fotovoltaica reduzida ou nula, porém com uma carga
supervisionada elevada.
Adicionalmente, tendo em vista a diferença entre as bases de capacidade instalada tanto de
MMGD quanto de usinas eólicas e fotovoltaicas, para as
análises a seguir será utilizada a base de MMGD da metodologia 4MD e a previsão da evolução da capacidade
instalada de geração eólica e fotovoltaica
da base PEN/PMO, ambas utilizadas no PMO de setembro de 2025. De forma complementar, será feita uma
sensibilidade dos resultados considerando as
bases de geração consideradas no PAR/PEL 2025.
Nesse contexto, a Figura 6.4, a seguir, apresenta a distribuição dos cortes de geração (em
MW) ao longo do tempo, divididos nos quatro intervalos específicos
supracitados, entre 2026 e 2029. Os pontos azuis representam as horas sem cortes de geração, enquanto os
pontos vermelhos indicam as horas com cortes,
com a magnitude dos cortes, em MW, no eixo Y. A partir dela é possível identificar que:
-
Intervalo das 00:00h às 06:59h (3,3% do intervalo com restrição): Este gráfico mostra uma
predominância de pontos de
operação sem cortes de geração, como evidenciado pela quantidade de pontos azuis e pela ausência de
pontos vermelhos. Isso
indica que este período não é crítico do ponto de vista de cortes de geração por razões energéticas e
por razões de confiabilidade
das interligações do Norte e Nordeste para o Sudeste.
-
Intervalo das 07:00h às 08:59h e das 16:00h às 17:59h (37,8% do intervalo com restrição): Este
gráfico cobre os períodos
de transição de manhã e tarde. Há uma ocorrência moderada de cortes de geração, com montantes de
restrição notáveis na
ordem de até 20 GW, com alguns picos na ordem de 40 GW. Esse intervalo indica que serão necessários
ajustes do montante de
geração tanto no início do dia e quanto ao final do dia antes da rampa de carga.
-
Intervalo das 09:00h às 15:59h (73,7% do intervalo com restrição): Este é o período mais
crítico, onde há a presença da
MMGD de forma acentuada junto com a geração fotovoltaica centralizada. Neste intervalo, os cortes
atingem montantes da
ordem de 50 GW, principalmente aos domingos e feriados, onde pode ser identificada a necessidade de
restringir toda a geração
eólica e fotovoltaica para atender ao equilíbrio carga e geração do SIN. Nesta perspectiva, a
integração de novas fontes de
geração no período diurno irá agravar as restrições e aumentar a frequência dos cortes de geração já
previstos.
-
Intervalo das 18:00h às 23:59h (2,8% do intervalo com restrição): Semelhante ao primeiro
intervalo, este período apresenta
uma baixa frequência de cortes de geração pelos motivos supracitados, e com cortes que não passam da
ordem de 10 GW. É
possível perceber que, à medida que a carga aumenta, há uma diminuição considerável dos montantes de
cortes.

Figura 6.4: Distribuição dos Cortes de Geração ao Longo do Tempo
Como forma de passar uma sensibilidade sobre o impacto da escolha das bases de capacidade
instalada de geração, tanto de MMGD quanto de eólica e
fotovoltaica, a Tabela 6.5 apresenta o maior corte verificado por período e o percentual do tempo em que
há violação de algum dos três limites, por período
do dia, para as bases de capacidade instalada de geração, a partir das combinações dessas bases.

Tabela 6.5: Comparação da evolução do Curtailment para as bases analisadas.
Tal sensibilidade permite compreender com mais clareza o impacto da MMGD, uma vez que o
cenário da previsão 4MD possui uma capacidade instalada
maior que a base do PAR/PEL, e das bases PEN/PMO e PAR/PEL na previsão de capacidade instalada de geração
eólica e fotovoltaica, visto que a primeira
possui menor capacidade que a segunda. Além disso, fica evidente que tanto o aumento da capacidade
instalada de geração centralizada, representado
pelas eólicas e fotovoltaicas na base PAR/PEL, quanto de MMGD, representado na base 4MD, aumentarão
consideravelmente as restrições durante o
período diurno.
A Figura 6.5 apresenta o corte médio e o percentual de corte de geração por cada
classificação ao longo do tempo, enquanto a Figura 6.6 apresenta as
mesmas informações segmentadas por fonte. A partir das figuras, fica evidente que os cortes por razões
energéticas serão preponderantes em relação aos
cortes por confiabilidade elétrica das interligações, com o impacto principalmente na fonte solar, uma vez
que o percentual de corte é superior a 25% em
quase todo o horizonte, e tende a se agravar com uma maior penetração de MMGD no SIN. Cumpre destacar que
as restrições internas aos subsistemas não
estão sendo representadas, especialmente em usinas localizadas no Rio Grande do Norte e Ceará, tampouco o
vertimento turbinável das UHEs, o que pode
resultar na subestimação do curtailment total do SIN. Portanto, esses números não devem ser
interpretados isoladamente para pontos específicos, mas sim
como indicativos de tendências médias no sistema.

Figura 6.5: Corte Médio e Percentual do Corte de Geração por Classificação ao
Longo do Tempo

Figura 6.6: Corte Médio e Percentual do Corte de Geração por Fonte e
Classificação ao Longo do Tempo
6.4. Impacto da Integração de Grandes Consumidores no Curtailment
Novos mercados com alto consumo de energia elétrica vêm se desenvolvendo em escala global.
Entre eles, destacam-se os setores de tecnologia, como
os data centers, e as indústrias voltadas à descarbonização da economia, com ênfase para o hidrogênio
verde (H2V). Nesse cenário, tanto o H2V quanto os
data centers surgem como alternativas promissoras para absorver parte do excedente de geração renovável e,
potencialmente, reduzir o curtailment dessa
energia.
Para avaliar esse potencial, foram analisados dois cenários de sensibilidade, focados no
impacto da integração de grandes consumidores na redução do
curtailment do SIN em 2029. Nas análises, foi adotada uma premissa propositalmente hipotética e
otimista: foi considerado que o parque hidráulico atual
teria capacidade para suprir a conexão dessas cargas, inclusive nos períodos de ponta. Dessa forma, não
foi prevista a expansão da base de geração —
escolha metodológica importante, pois qualquer alteração nesse ponto, como maior despacho térmico na base
poderia elevar os cortes de geração em
determinados momentos.
Com esse enquadramento, buscou-se isolar e quantificar o potencial teórico máximo de redução
do curtailment decorrente da entrada de grandes
consumidores com perfil de carga constante ao longo do dia, sem condicionar a análise aos desafios de
atendimento à ponta ou à necessidade de reforços
na oferta de potência e energia.
Na prática, esse efeito pode ser menor. Isso porque, para atender às novas cargas ao longo
de todo o ano, será necessário ampliar a oferta de geração e de
potência no SIN. Dependendo da combinação de recursos adicionados — por exemplo, térmicas inflexíveis ou
com restrições elevadas de unit commitment
— o perfil de despacho resultante pode alterar as condições operativas e, em alguns casos, até aumentar o
curtailment, minimizando o impacto positivo da
integração desses consumidores na redução dos cortes de geração.
Além disso, grandes consumidores como data centers e indústrias de hidrogênio verde tendem a
operar de forma contínua e pouco flexível. Esse comportamento
ajuda a absorver a geração renovável excedente durante o dia, mas não contribui para aliviar os períodos
críticos de ponta, onde se concentram as maiores
restrições de potência do SIN. Assim, o benefício real dependerá da capacidade do sistema de acomodar
simultaneamente a nova carga e os requisitos
adicionais de potência.
Em síntese, os cenários apresentados têm como objetivo medir o limite superior do benefício
potencial, e não reproduzir exatamente como o sistema deverá
operar após a integração desses novos grandes consumidores.
No Cenário 1, foi considerado um incremento de carga de 1.500 MW no Nordeste e 1.000 MW no
Sudeste/Centro-Oeste. No Cenário 2, avaliou-se um
incremento de 3.000 MW no Nordeste, mantendo-se os mesmos 1.000 MW no Sudeste/Centro-Oeste. Para ambos os
cenários, utilizou-se a base de MMGD
da metodologia 4MD e a previsão de geração eólica e fotovoltaica da base PEN/PMO. A Figura 6.7 apresenta
os cortes médios para o cenário de referência e
para os dois cenários de sensibilidade supracitados. De forma adicional, a Figura 6.8 apresenta os cortes
médios dessa análise dentro do intervalo de 09h00
às 15h59.

Figura 6.7: Corte Médio e Percentual do Corte de Geração por Fonte e
Classificação ao Longo do Tempo

Figura 6.8: Corte Médio e Percentual do Corte de Geração por Fonte e
Classificação ao Longo do Tempo
Os resultados apresentados na Figura 6.7 mostram que a integração de grandes consumidores
reduz o curtailment por razões energéticas e de
confiabilidade, porém em magnitude limitada quando comparada ao total de cortes observados. Mesmo no
cenário mais extremo, com acréscimo
de aproximadamente 4 GW de carga (3 GW no Nordeste e 1 GW no Sudeste/Centro-Oeste), a redução do
curtailment médio por razões energéticas
foi de apenas cerca de 700 MW, e o total somado (energético + confiabilidade) permaneceu inferior a 800
MW. Nesta linha, a Figura 6.8 mostra
que, embora grandes blocos de carga com perfil de consumo constante contribuam para absorver parte da
geração renovável excedente durante o
dia, o volume de cortes está concentrado em janelas horárias específicas, com patamares que excedem mesmo
incrementos de carga expressivos.
Nessa simulação do Cenário 2, a integração de aproximadamente 4 GW de novos consumidores resultou em uma
redução de 693 MW médios no
curtailment total do SIN, o que corresponde a uma “eficiência teórica” de cerca de 17% na mitigação
dos cortes de geração.
Em síntese, a análise dos cortes de geração ao longo do horizonte 2026–2029 evidencia que o
problema é estruturalmente concentrado no período diurno,
especialmente entre 09h e 15h59, quando a combinação entre MMGD e a geração fotovoltaica e eólica
centralizada resulta em montantes de restrição que
podem superar 50 GW, atingindo situações extremas em fins de semana e feriados. Nos demais intervalos,
madrugada e noite, os cortes são reduzidos, e nos
períodos de transição (07h–08h59 e 16h–17h59) há apenas ajustes moderados de geração. Esse diagnóstico
reforça que a eliminação ou redução substancial
dos cortes de geração renovável não dependerá apenas da integração de grandes consumidores ou de recursos
de flexibilidade, como armazenamento ou
resposta da demanda. Será igualmente essencial que a expansão da geração renovável variável, sobretudo
solar, centralizada e distribuída, não continue
avançando em ritmo superior ao crescimento da carga do SIN nesses horários. Caso contrário, o sistema
permanecerá preso a um efeito de “soma zero”, em
que novas usinas renováveis passam apenas a deslocar a geração renovável já existente, sem produzir ganho
líquido de energia útil para o SIN, ampliando
ainda mais a necessidade de cortes. Nesse contexto, será fundamental racionalizar políticas públicas,
incentivos e subsídios, de modo que a expansão futura
da oferta renovável se alinhe à capacidade real de absorção do sistema e contribua de forma efetiva para
eficiência, otimização e segurança da operação
eletroenergética do SIN.
6.5. Conclusões
Este capítulo buscou lançar luz sobre os desafios do curtailment no horizonte
temporal do ONS, compreender as causas, analisar a evolução dos cortes de
geração ao longo dos últimos anos e realizar projeções para antecipar tendências futuras. Essa análise
contribui para minimizar a assimetria de informações,
priorizar reformas e ações técnicas e regulatórias necessárias, além de fundamentar o aprimoramento e a
dosimetria das políticas públicas envolvidas e,
portanto, fornecer ao Setor Elétrico Brasileiro uma base sólida para futuras decisões relacionadas ao seu
tema central.