Flexibilização dos limites de intercâmbio gerou economia de R$ 11 bilhões para o País durante a crise hídrica 
Resultado foi mensurado no projeto Valor Agregado do ONS, que quantifica os benefícios financeiros que a gestão do Operador traz para a sociedade


O sistema elétrico brasileiro passou por sucessivos períodos de reduzidas afluências nos últimos anos em seus principais reservatórios, notadamente nos localizados nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, que representam em torno de 70% da capacidade de armazenamento de energia do Sistema Interligado Nacional (SIN). A situação ficou ainda mais sensível em 2021 com a escassez de chuvas, por isso o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), após diversas análises, adotou uma série de medidas de forma a garantir o abastecimento de energia elétrica no país. Uma dessas iniciativas foi a flexibilização dos limites de intercâmbio, que propiciou uma economia de R$11,1 bilhões para o setor elétrico brasileiro. Os números foram apurados dentro da metodologia do Valor Agregado, que mensura os benefícios financeiros que as ações do Operador trazem na coordenação do processo.

A adoção da flexibilização nos limites de intercâmbios foi fundamental para permitir que os excedentes energéticos das regiões Norte/Nordeste, originados principalmente de fontes eólicas e fotovoltaicas, fossem exportados para outros subsistemas com o objetivo de assegurar níveis mínimos nos reservatórios mais impactados pela escassez hídrica.

Para a adoção dessas medidas, houve a necessidade de um conjunto de avaliações e estudos prévios, assim como medidas de monitoramento constantes.  Uma operação excepcional, efetuada com toda a segurança e excelência, permitiu usar de forma plena os excedentes energéticos do Norte e do Nordeste e transferi-los para o Sudeste, Centro-Oeste e Sul, principais centros de carga do país.

Neste cenário, após diversos estudos, de modo a viabilizar o escoamento dos excedentes energéticos das regiões Norte e Nordeste, o ONS propôs a possibilidade de alterar os limites de exportação de energia dessas regiões, considerando a flexibilização do critério N-2, condicionada a regras bem definidas para retornar a operação aos padrões originais caso algum risco de perda simultânea se configurasse, como vendavais, queimadas próximas às linhas de transmissão ou a indisponibilidade de equipamentos. A proposta foi aprovada pelos órgãos competentes, tendo sido praticada entre os meses de julho e novembro de 2021.

Com a medida, a exportação de energia das regiões Norte/Nordeste para as regiões Sudeste e Centro-Oeste aumentou de 1.000 a 3.000 MW ao longo dos meses em que foi praticada, possibilitando uma preservação de 3% da energia armazenada (EAR) do subsistema com maior capacidade de estocar água. O benefício alcançado foi equivalente a uma geração média de 1.460 MW, entre agosto e novembro de 2021. Considerando que, para preservar os reservatórios, foi necessário o despacho de usinas termelétricas com custos da ordem de R$ 2.500 R$/MWh, podemos estimar que a medida de flexibilização dos limites de exportação do Nordeste representou uma economia de R$11,1 bilhões para o setor elétrico brasileiro.

Para melhor explicar esta ação, é necessário ressaltar que os estudos de planejamento da operação elétrica têm como base o critério de suportar a perda simples de um elemento da rede sem corte de carga, denominado critério “N-1". Esse critério está consolidado nos Procedimentos de Rede, que regem as atividades do ONS, sendo aplicado tanto para a operação do SIN, quanto para a proposição das obras de ampliações e reforços na Rede Básica. Adicionalmente, também faz parte dos critérios oficiais de segurança da operação, suportar as perdas simultâneas de circuitos de transmissão que compartilhem estruturas ou a mesma faixa de passagem, o que se denomina critério “N-2". O que o ONS propôs e praticou, após autorização do CMSE, foi justamente a flexibilização do critério “N-2" nas linhas que impactam a exportação da região Nordeste.

Embora a flexibilização dos limites de transmissão tenha sido bastante relevante, outras medidas excepcionais também foram implementadas com sucesso. O despacho de usinas térmicas fora da ordem de mérito e a importação de energia da Argentina e do Uruguai são algumas delas. Ações estas que foram autorizadas e tiveram início em 17/10/2020. Nos meses que se sucederam e ao longo de todo o ano de 2021, o ONS, instituições do setor e agentes, mobilizaram 35 linhas de ação de enfrentamento à crise que, juntas, foram imprescindíveis para garantir o abastecimento energético sem a necessidade de implantação de medidas mais drásticas. Dentre elas, destacamos as que tiverem maior envolvimento do ONS:

  • Ampliação de limites de intercâmbio de energia entre subsistemas, já comentada neste artigo;
  • Flexibilização de restrições hídricas em alguns dos principais reservatórios do SIN;
  • Implantação ou revisão de Sistemas Especiais de Proteções em áreas críticas para promover uma maior possibilidade de escoamento de energia;
  • Negociação com os agentes para alocarem suas manutenções preventivas em períodos mais favoráveis;
  • Interações com agentes e instituições setoriais para garantir o suprimento de combustível para as usinas térmicas;
  • Interações com os agentes detentores de empreendimento de geração ou transmissão em construções para buscar a viabilização de antecipação da conclusão de obras.


Ressaltamos que as equipes técnicas do ONS foram fundamentais para viabilização das duas primeiras medidas da lista, realizando uma série de estudos, produzindo relatórios com dados técnicos e participando de reuniões com as instituições envolvidas para apresentar as propostas detalhadas de encaminhamento das ações, além da gestão na implementação das medidas e a implementação na programação e na operação em tempo real.

No artigo que divulgamos em 12/04/2022, anunciamos uma série de publicações sobre a atuação do ONS e correspondentes benefícios agregados, demonstrando a relevância de uma estratégia coordenada, visando ao aumento da sinergia na governança do setor elétrico. No próximo artigo dessa série, iremos apresentar a relevância da segunda medida adotada e os benefícios que trouxe para o país no enfrentamento daquela situação extremamente desfavorável.

Este é um resultado significativo de Valor Agregado que está sendo divulgado. Nos próximos artigos, apresentaremos novas informações referentes a outras ações implementadas pelo ONS, mensurando seus impactos para a sociedade. Acompanhe!